29 maio 2026, 19:35
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    O SILÊNCIO TAMBÉM COMUNICA

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    Na política local, esta questão torna-se ainda mais sensível. Ao contrário do que acontece no plano nacional, onde existe uma multiplicidade de televisões, jornais, comentadores, debates e ruído permanente, a comunicação de proximidade depende muitas vezes de poucos canais. Um jornal local, uma rádio, uma página digital ou uma publicação partilhada podem influenciar de forma decisiva aquilo que a população sabe, discute e valoriza.

    É por isso que a comunicação social local tem uma responsabilidade especial. Não é apenas um veículo de divulgação de eventos, inaugurações ou agendas institucionais. É, ou deve ser, um espaço de escrutínio, participação e memória coletiva. Deve aproximar as pessoas da vida pública, não apenas mostrar-lhes uma parte cuidadosamente selecionada dela.

    Naturalmente, qualquer órgão de comunicação tem critérios editoriais. E ainda bem. Um jornal não é um mural onde tudo se cola sem ponderação. Cabe-lhe escolher, hierarquizar, verificar, contextualizar. Mas quando determinadas vozes encontram espaço com facilidade e outras parecem depender de uma generosidade ocasional, talvez seja legítimo perguntar se estamos perante uma escolha puramente jornalística ou perante um hábito que se instalou sem grande explicação.

    A democracia não empobrece apenas quando alguém proíbe uma opinião. Empobrece também quando uma comunidade se habitua a ouvir sempre os mesmos. Quando a diversidade de pensamento passa a ser tratada como ruído. Quando a crítica é confundida com ataque. Quando a discordância é vista como incómodo e não como sinal de vitalidade democrática.

    O poder, qualquer poder, tende naturalmente a gostar de conforto. Gosta de previsibilidade, de aplausos, de fotografias bem compostas e de perguntas que não estraguem a cerimónia. É uma tendência humana. Precisamente por isso, as democracias criaram mecanismos de equilíbrio: oposição, imprensa livre, cidadãos exigentes e instituições que não devem confundir estabilidade com unanimidade.

    Há uma diferença essencial entre uma comunidade unida e uma comunidade silenciosa. A união nasce do respeito, da participação e da capacidade de construir em conjunto apesar das diferenças. O silêncio, quando se torna hábito, pode nascer da dependência, do cansaço ou da simples perceção de que algumas vozes contam menos do que outras.

    E aqui importa ser clara: discordar não é destruir. Questionar não é atacar. Fiscalizar não é fazer oposição por oposição. Dar espaço a sensibilidades diferentes não enfraquece a vida pública; pelo contrário, torna-a mais adulta. Uma terra que não suporta contraditório talvez não esteja tão tranquila como parece. Talvez esteja apenas demasiado habituada a uma versão única dos acontecimentos.

    Também convém desfazer uma ilusão confortável: a neutralidade não se mede apenas pelo que se publica. Mede-se também pelo que se deixa sistematicamente de fora. Hoje, felizmente, já não é preciso recorrer a formas grosseiras de censura. Seria antiquado, desagradável e pouco elegante. A modernidade inventou métodos mais discretos: adiar, relativizar, omitir, não encontrar espaço, considerar pouco relevante. O problema começa quando a coincidência se transforma em padrão.

    Uma imprensa livre não tem de ser hostil ao poder. Mas também não deve ser sua extensão informal. Deve servir os leitores, não os equilíbrios de ocasião. Deve informar, não apenas ornamentar. Deve abrir janelas, não pintar paredes.

    E o mesmo vale para todos nós, cidadãos. Também temos responsabilidade no modo como consumimos informação. Devemos perguntar mais, comparar mais, desconfiar um pouco mais das unanimidades fáceis. Uma comunidade madura não exige que todos pensem da mesma forma. Exige apenas que todos possam conhecer o suficiente para pensar por si.

    Nenhuma terra pertence a uma só voz, a um só partido, a uma só geração ou a uma só instituição. Pertence às pessoas que nela vivem: às que concordam e às que discordam, às que governam e às que fiscalizam, às que aparecem e às que muitas vezes ficam por ouvir.

    Por isso, sim: o silêncio também comunica. E quando se prolonga demasiado, deixa de ser apenas ausência de palavras. Passa a ser uma mensagem. Resta saber se estamos dispostos a escutá-la.

     

     

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