Há tragédias que acontecem longe no mapa, mas perto da memória. A Venezuela é uma delas.
Para muitos portugueses, a Venezuela nunca foi apenas um país distante da América do Sul. Foi terra de trabalho, de família, de recomeço. Foi o lugar para onde partiram pais, avós, tios e vizinhos à procura de uma vida melhor. Foi, durante décadas, uma extensão afetiva de muitas casas portuguesas. Por isso, quando a Venezuela sofre, Portugal não assiste de fora. Sente também.
Os sismos que atingiram o país deixaram um rasto de morte, destruição e medo. Casas caídas, famílias desfeitas, ruas transformadas em escombros, pessoas à procura de sobreviventes onde antes havia vida quotidiana. Há imagens que dispensam comentário. E há dores que nenhuma estatística consegue verdadeiramente medir.
Mas uma tragédia natural nunca é apenas natural quando atinge um país já ferido. A terra treme sem pedir licença, é certo. Mas a forma como um país resiste, socorre e reconstrói depende de muito mais do que da força do abalo. Depende das instituições, da preparação, da confiança no Estado, da qualidade das infraestruturas, da transparência e da capacidade de colocar as pessoas acima da propaganda.
E é aqui que a Venezuela nos obriga a olhar para além da emoção imediata.
Durante anos, o povo venezuelano viveu entre crises políticas, económicas e humanitárias que empurraram milhões para fora do país e deixaram muitos dos que ficaram presos a uma sobrevivência diária. A queda de Nicolás Maduro e a existência de um governo interino abriram uma nova fase, mas não apagaram, por milagre, anos de degradação institucional. Nenhum país se reconstrói de um dia para o outro. Muito menos quando, além da crise política, tem agora de enfrentar a devastação física e humana de uma catástrofe.
Há uma frase dura, mas necessária: as ditaduras não destroem apenas a liberdade. Destroem também a capacidade de um país responder quando a vida exige competência. Enfraquecem instituições, afastam talento, substituem mérito por lealdade, verdade por conveniência, planeamento por sobrevivência. Depois, quando chega uma tragédia, descobre-se que a propaganda não levanta prédios, não coordena socorro e não consola mães.
Neste momento, a prioridade deve ser salvar vidas, assistir os feridos, encontrar desaparecidos, acolher desalojados e garantir ajuda humanitária. Tudo o resto vem depois. Mas também seria errado fingir que a reconstrução da Venezuela é apenas uma questão de cimento, ambulâncias e tendas. É também uma questão de democracia, confiança e responsabilidade pública.
María Corina Machado, Nobel da Paz, simboliza precisamente essa esperança difícil: a de uma Venezuela capaz de regressar à liberdade sem trocar uma forma de medo por outra. O seu desejo de voltar ao país para estar junto do povo tem uma força política e humana evidente. Há gestos que valem mais do que longos discursos. Estar presente quando tudo treme é um deles.
Portugal deve estar ao lado da Venezuela. Não por cálculo diplomático, nem por sentimentalismo barato, mas por dever histórico e humano. Há portugueses e luso-descendentes naquele país. Há famílias em Portugal que esperam notícias. Há comunidades inteiras que reconhecem naquele sofrimento uma parte da sua própria história.
E também nós, nas nossas terras, sabemos o que significa a emigração. Sabemos o que é ter família longe, vidas repartidas entre países, saudades transformadas em chamadas, fotografias e promessas de regresso. A Venezuela entrou em muitas casas portuguesas pela porta do trabalho e da esperança. Hoje entra pela porta da dor.
Perante uma tragédia desta dimensão, não basta lamentar. É preciso ajudar. Mas ajudar bem exige mais do que boas intenções. Exige coordenação, transparência e capacidade de garantir que a ajuda chega a quem dela precisa. O povo venezuelano já sofreu demasiado para continuar a ser tratado como figurante de disputas políticas.
A Venezuela precisa de socorro, sim. Mas precisa também de verdade. Precisa de instituições que sirvam os cidadãos, de lideranças que compreendam a gravidade do momento e de uma comunidade internacional que ajude sem transformar a dor alheia em palco de interesses.
Há países que, mesmo longe, nos pertencem um pouco. A Venezuela pertence à memória de muitos portugueses. E talvez por isso esta tragédia nos doa de forma diferente.
Porque quando um povo sofre assim, a distância é apenas geografia. A humanidade, essa, não devia conhecer fronteiras.
Ana Leal Moreira




