Há uma certa audácia – diga-se, quase teatral – em quem perde dez eleições consecutivas
para a Câmara Municipal e para a Assembleia Municipal e, mesmo assim, continua a
apresentar-se aos lousadenses como a voz autorizada sobre o que Lousada precisa.Dez.
Um deslize seria uma má campanha, um ciclo desfavorável. Dez é uma sentença repetida,
eleição após eleição, pelos próprios lousadenses. E sentenças repetidas têm um nome:
veredito.
Há pouco mais de seis meses, os lousadenses voltaram às urnas. Foram claros. Deram
maioria à Câmara e à Assembleia Municipal. Uma escolha deliberada, consciente e
inequívoca. Como se costuma dizer: as urnas não mentem. A oposição, essa, tem
cultivado uma relação muito interessante com a verdade.
Entretanto, surgiu a Iniciativa Liberal. E há que reconhecer o mérito: a sua chegada prova
que Lousada acompanha os ventos do país, que há espaço para novas forças e que o
eleitorado está atento. O que se tem visto na prática, na comunicação e na forma como
falam, é uma história diferente da que é contada. São azuis por fora e laranjas por dentro.
Divorciaram-se do PSD com toda a cerimónia, mas quem conhece a política local sabe
que estes casamentos têm tendência a ser reatados. Daqui a quatro anos, o namoro
recomeça. A política local tem memória longa, mesmo quando finge não ter.
O fundamental é simples: Lousada está no bom caminho. O concelho é vibrante, as
freguesias crescem, há investimento, há eventos, há pessoas que escolhem ficar. A
narrativa do abandono, do esquecimento, do dormitório, da terra parada no tempo, foi
construída com muito esforço por quem precisava dela para justificar a própria existência
política.
O problema é que as narrativas têm prazo de validade quando a realidade as
contradiz todos os dias – e a realidade teima em dar razão a quem nela vive.
Quando um povo responde com esta consistência, com este ritmo eleitoral de mais de 3
décadas, talvez o problema seja mais profundo do que o candidato errado ou a campanha
mal feita. Talvez seja a mensagem. Talvez seja a incapacidade de olhar para um concelho
que cresce e, com honestidade, reconhecê-lo.
Os lousadenses percebem. Percebem quando uma promessa é vazia, percebem quando
uma alternativa é apenas um rótulo novo sobre ideias velhas, percebem quando a crítica
existe para existir. E há seis meses voltaram a provar isso.
Escolheram – de forma clara, de forma maioritária, de forma que não deixa margem para dúvidas. Lousada tem futuro e os lousadenses sabem-no. É por isso que continuam a construí-lo, eleição após eleição, com a serenidade de quem não precisa de gritar para ser ouvido.




