13 junho 2026, 19:07
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    REFORMAR O TRABALHO NÃO DEVIA SER UMA GUERRA

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    Ana Leal Moreira
    Advogada e Vereadora da Câmara Municipal de Lousada

    Em Portugal, sempre que se fala em mexer na lei laboral, instala-se imediatamente a suspeita. Uns veem uma ameaça aos direitos dos trabalhadores; outros veem uma oportunidade para tornar a economia mais competitiva. O problema é que, no meio da guerra de slogans, quase ninguém fala do essencial: como criar trabalho digno, salários melhores e empresas capazes de sobreviver num mundo que já mudou.

    A discussão sobre o trabalho não devia começar pelo medo. Devia começar pela realidade. E a realidade é simples: Portugal continua a ter salários baixos, produtividade insuficiente, demasiada precariedade em alguns setores e demasiada rigidez noutros. Temos jovens qualificados a sair do país, empresas pequenas a tentar resistir entre impostos, burocracia e custos crescentes, famílias que fazem contas ao fim do mês e trabalhadores que não querem apenas “ter emprego”; querem ter futuro.

    Perante isto, fingir que está tudo bem é confortável, mas pouco sério. A lei laboral não pode ser uma peça de museu, guardada numa redoma para não incomodar ninguém. Também não pode ser uma folha em branco onde se apagam direitos em nome de uma modernidade mal explicada. Entre o imobilismo e o vale-tudo há um espaço exigente, mas necessário: o espaço da responsabilidade.

    É aí que uma visão social-democrata deve estar. Defender o trabalhador não é congelar a economia. Defender as empresas não é esquecer as pessoas. Um país decente protege quem trabalha, mas percebe que só há bons empregos onde existem empresas capazes de crescer, investir, inovar e pagar melhor.

    Reformar o trabalho não devia ser uma guerra entre bons e maus. Não há, de um lado, santos de capacete sindical e, do outro, vilões de fato e gravata. Há trabalhadores que precisam de segurança e reconhecimento. Há empresários que arriscam, contratam e pagam salários mesmo quando o mês corre mal. Há abusos que devem ser combatidos. E há bloqueios que devem ser removidos. A política existe precisamente para distinguir uma coisa da outra.

    Por isso, faz sentido que a discussão desça das grandes proclamações para medidas concretas. O banco de horas, por exemplo, não deve ser tratado como uma ameaça automática nem como uma solução milagrosa. Pode ser um instrumento útil quando assenta em acordo, transparência e compensação justa; pode ser um abuso se for imposto sem equilíbrio. O mesmo se diga do outsourcing: numa economia moderna e especializada, nenhuma empresa faz tudo dentro de portas. Mas flexibilizar não pode significar abrir portas à substituição encapotada de trabalhadores ou à fuga de responsabilidades.

    É precisamente aqui que a reforma deve ser discutida com seriedade. Não basta gritar “direitos” como se a palavra, por si só, pagasse salários. Também não basta repetir “competitividade” como se as pessoas fossem peças substituíveis numa máquina qualquer. O equilíbrio não está no slogan mais alto; está na regra bem desenhada, no direito que se cumpre, na empresa que cresce e no trabalhador que sente na vida concreta que o seu esforço tem valor.

    A reforma não pode ser apenas administrativa, daquelas em que se mexe o suficiente para parecer que mudou alguma coisa, mas não o bastante para incomodar o país que se habituou a adiar. Tem de reformar mesmo o trabalho. Com coragem, com critério e com conhecimento do país real: das empresas, das famílias, dos territórios e das pessoas que não vivem dentro de conferências nem de gabinetes.

    Também nos concelhos como o nosso esta discussão não é abstrata. Está no comércio que precisa de contratar, na indústria que quer produzir, nos serviços que lutam por horários compatíveis com a vida das famílias, no jovem que pondera se fica ou se emigra, nos pais que precisam de tempo para os filhos e nos trabalhadores que querem ganhar mais sem terem de pedir desculpa por ambicionar uma vida melhor.

    É curioso como, em Portugal, todos dizem querer melhores salários, mas muitos tremem quando se fala em mudar as condições que permitem pagá-los. Queremos empresas modernas, mas leis pensadas para um país que já não existe. Queremos produtividade, mas tratamos a palavra como se fosse uma grosseria. Queremos reter jovens, mas oferecemos-lhes demasiadas vezes a escolha entre recibos verdes, salários curtos ou bilhete de avião.

    Reformar exige equilíbrio. Não se deve legislar contra os trabalhadores, nem contra as empresas. Deve legislar-se contra a pobreza laboral, contra a precariedade abusiva, contra a estagnação, contra a burocracia e contra a ideia resignada de que Portugal tem de ser sempre um país de baixos salários e grandes discursos.

    A boa política não tem medo da mudança. Tem medo, isso sim, de mudar mal. E é por isso que a reforma laboral deve ser discutida com seriedade, sem slogans fáceis e sem chantagens emocionais. Nem tudo o que muda retira direitos. Nem tudo o que protege garante futuro.

    No fim, a pergunta é simples: queremos uma lei laboral que sirva para conservar problemas ou para ajudar a resolvê-los? Porque o trabalho mudou. O país mudou. O mundo mudou. E Portugal não pode continuar a responder ao século XXI com os reflexos do século passado.

    Ana Leal Moreira

     

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