O aviso chegou no verão passado pela Sociedade Ponto Verde. A saber: Portugal corria o sério risco de não cumprir as metas europeias para a reciclagem fixadas nesse ano, isto é, 2025. Chegados, pois, a 2026, contas feitas, o falhanço confirmou-se: Portugal falhou as metas, apesar do reforço financeiro neste domínio, num total de 220 milhões de euros.
Citando a agência de notícias Lusa, “os portugueses separaram em 2025 mais 2% de embalagens para reciclagem do que em 2024, num total de 486.990 toneladas”. Números que representam uma taxa de retoma abaixo dos 65% exigidos pela União Europeia (UE).
“Ao fim de um ano com valores de contrapartida reforçados, o sistema continua a entregar resultados muito aquém do que é exigido a nível europeu. Isto demonstra que a reciclagem de embalagens não se resolve apenas com mais financiamento”, esclarece a própria CEO da Sociedade Ponto Verde, Ana Trigo Morais, num comentário que fez chegar às redações a propósito deste tema.
De que precisamos, então? Segundo Ana Trigo Morais, é preciso maior transparência, métricas claras e responsabilização pelo desempenho. E como é que se consegue isso? Com um novo modelo, desde logo com a implicação das câmaras municipais e juntas de freguesia, que, pela proximidade às populações, devem e podem ser mais diligentes. Implementação de sistemas porta-a-porta, fiscalização… para ontem era tarde. É, de resto, a fiscalização que pode garantir um sistema mais justo e equilibrado.
Sim, bem sei que não é possível estar em todo o lado ao mesmo tempo, mas só quem não anda, de todo, na rua é que não vê. Dia após dia, depositam-se resíduos não domésticos, dentro e fora dos contentores, com um à-vontade que só pode ser por confiança de que não haverá consequências. É ramos de jardim, relva, é telhas, é ‘monos’, é eletrodomésticos, é estrume das galinhas, é sanitas, é tintas, é tudo e um par de botas. Já para não falar dos empresários ou encarregados que, no final de cada jornada diária, misturam os resíduos de construção, quando estão, pois, vinculados a empresas de construção civil, com o lixo comum, que é altamente prejudicial ao ambiente e é crime.
Com efeito, a fasquia estabelecida pela UE continua alta. Importa, por isso, recolher rapidamente os cacos e agir. Deixar o alerta é importante, claro, mas, acima de tudo, é preciso mobilizar a população para a importância da reciclagem.
Foi, precisamente, a pensar nisso que a associação de gestão de resíduos Electrão lançou uma campanha nacional de sensibilização para a reciclagem no final do ano passado. Falo da campanha em que ouvimos “atrasados ambientais”. O conceito, alegadamente humorístico, surge da constatação de que Portugal está um passo atrás em matéria de reciclagem e que são justamente os “atrasados ambientais”, que não sabem separar o lixo, os culpados.
Pois bem, eu não sei se esta será uma forma muito eficaz de mudar comportamentos. Na verdade, arriscaria mesmo a dizer que não será nada eficaz, visto que o ser humano detesta que lhe apontem o dedo e detesta ainda mais que o chamem de “atrasado”. Ainda assim, percebo o ponto. Afinal de contas, Portugal está no grupo dos atrasados ambientais por alguma razão…


