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    CRÓNICA DE CARLOS MARTINS: O MAIOR GRILHÃO DO HOMEM É ACREDITAR QUE NUNCA ESTEVE AGRILHOADO

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    “Enquanto eu não possuí mais do que minha cama e meus livros, eu fui feliz. Agora possuo nove galinhas e um galo, e minha alma está perturbada. A propriedade me tornou cruel.

    Sempre que comprava uma galinha amarrava-a dois dias a uma árvore, para impor-lhe a minha morada, destruindo em sua memória frágil o amor pela sua antiga residência. Remendei a cerca do meu quintal, a fim de evitar a evasão das minhas aves e a invasão de raposas de quatro e de dois pés. Isolei-me, fortifiquei a fronteira, tracei uma linha diabólica entre mim e o meu próximo. Dividi a humanidade em duas categorias: eu, dono das minhas galinhas, e os outros que podiam tirar-mas. Eu defini o crime. O mundo ficou cheio para mim de alegados ladrões, e pela primeira vez atirei do outro lado da cerca um olhar hostil.

    Meu galo era muito novo. O galo do vizinho pulou a cerca e começou a corte das minhas galinhas e a amargar a existência do meu galo. Despedi o intruso à pedrada, mas elas pularam a cerca e ovaram na casa do vizinho. Reclamei os ovos e meu vizinho me odeia. Desde então, vi a cara dele sobre a vedação, o seu olhar inquisidor e hostil, idêntico ao meu. Suas galinhas passavam a cerca e devoravam o milho molhado que consagrava às minhas. As galinhas alheias parecem criminosas. Persegui-as e cego pela raiva matei uma. O vizinho atribuiu grande importância ao atentado. Ele não aceitou uma indemnização pecuniária. Retirou gravemente o cadáver da sua galinha e em vez de comê-la, mostrou-a aos seus amigos, e começou a circular pelo povo a lenda da minha brutalidade imperialista. Tive de reforçar a vedação, aumentar a vigilância, elevar, em suma, o meu orçamento de guerra. O vizinho tem um cão determinado a tudo; eu pretendo comprar um revólver.

    Onde está a minha velha tranquilidade? Estou envenenado pela desconfiança e pelo ódio. O espírito do mal tomou conta de mim.

    Eu era um homem. Agora sou um proprietário.”

    Este texto de Rafael Barrett (1910), recorda-me que tenho tantas razões para detestar tanto o capitalismo, que concentra o poder em poucos que não se responsabilizam pelas externalidades negativas e pagam menos impostos do que um barbeiro, como as ideologias que pretendem redistribuir a riqueza em nome de um impossível igualitarismo.

    Detesto a ditadura da maioria, tanto quanto abomino os demoliberais e os globalistas totalitários que buscam a uniformidade e a submissão da sociedade a um poder político subordinado ao poder económico. Gosto da liberdade, da minha pátria, da família, da terra onde nasci e da generalidade das pessoas. Respeito e admiro aqueles que mantêm pontos de vista que considero errados, mas que são genuínos.

    Tal como John Adams acredito que a verdadeira fonte dos nossos sofrimentos tem sido a nossa timidez e o medo de pensar de forma autónoma e crítica. Por prudência, somos excessivamente cautelosos e hesitantes em reclamar os nossos direitos. Por receio de ofender consentimos muitas coisas que a prudência desaconselharia, e abdicamos da nossa liberdade e dos nossos direitos com mansidão e servilismo.

    Hoje a minha esperança reside num punhado de pessoas que enfrentam o progressismo totalitário e a face mais pérfida do globalismo, pois tal como Platão e Tocqueville reconhecem as fragilidades da democracia quando esta cede ao totalitarismo defendido por uma maioria ignorante e feroz ou à avidez interminável dos globalistas.

    Schopenhauer dizia que o maior grilhão do homem é acreditar que nunca esteve agrilhoado. Afinal a ganância, a ignorância e a falta de reconhecimento de direitos e deveres comuns são as grandes causas da ruína da humanidade.

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