18 outubro 2026, 03:03
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    BOMBEIROS: “ANJOS TRAJADOS COM ROUPAS OPERACIONAIS”

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    O centenário de uma corporação de bombeiros não é apenas uma data redonda. É uma pausa necessária para olhar para trás, agradecer e perceber que há instituições que resistem ao tempo porque nasceram de uma coisa rara: serviço.

    No dia 13 de junho, Lousada viveu uma dessas cerimónias que ficam na memória. As comemorações dos 100 anos da Associação Humanitária dos Bombeiros Voluntários de Lousada estiveram à altura da história que se celebrava. Começaram de manhã, com a inauguração do Monumento ao Bombeiro e o batismo das novas viaturas, oferecidas pelo Município e pelos respetivos padrinhos à corporação. Não foram apenas atos simbólicos. Foram sinais concretos de reconhecimento, gratidão e responsabilidade para com quem, tantas vezes, chega primeiro quando todos os outros ainda estão a tentar perceber o que aconteceu.

    Seguiu-se a missa, celebrada por D. Manuel Linda, Bispo do Porto, que deixou uma imagem feliz e difícil de esquecer: os bombeiros são “anjos trajados com roupas operacionais”. Há frases que poderiam soar exageradas se a realidade não lhes desse razão todos os dias. No caso dos bombeiros, talvez a imagem seja mesmo das poucas capazes de traduzir a entrega silenciosa de homens e mulheres que trocam o descanso pelo dever, a segurança pessoal pela proteção dos outros e a rotina familiar pelo chamamento imprevisível da emergência.

    A presença do Ministro da Administração Interna, Dr. Luís Neves, deu também à cerimónia a dignidade institucional que o momento merecia. E importa dizê-lo: num tempo em que tantas vezes a política parece distante, formal e excessivamente ensaiada, foi bom ver uma presença próxima, empática, mas também firme no que toca às causas da proteção civil e dos bombeiros. Ainda há poucos meses no cargo, tem mostrado uma preocupação clara com uma área que não admite leviandade. Os incêndios, a emergência médica, a coordenação operacional e as comunicações críticas não são temas para discursos bonitos de ocasião. São assuntos de vida ou morte.

    E é aqui que entra uma das questões mais sérias do país: a necessidade de garantir que quem está no terreno tem meios, comando e comunicações à altura. O SIRESP, que deveria ser sinónimo de segurança e fiabilidade, ficou demasiadas vezes associado a polémicas, falhas e explicações que chegam sempre tarde. Quando uma rede de emergência falha, não falha apenas um sistema técnico; falha a confiança de quem arrisca a vida e de quem espera ser protegido. Por isso, qualquer vontade séria de reformar e tornar mais robusto, fiável e menos vulnerável o sistema essencial ao socorro deve ser reconhecida. Neste domínio, a boa política não é a que promete milagres. É a que enfrenta problemas antigos sem fingir que foram inventados ontem.

    A sessão solene que se seguiu reuniu discursos, distinções e homenagens a bombeiros e a entidades públicas e privadas que contribuíram para estes 100 anos de história. E ainda bem que assim foi. Uma instituição centenária não se faz apenas de comandantes, direções ou equipamentos. Faz-se de voluntários, famílias, beneméritos, autarcas, empresas, associações e cidadãos que, em momentos diferentes, deram aquilo que podiam. Às vezes dinheiro. Às vezes tempo. Muitas vezes coragem.

    Depois vieram o desfile de viaturas, as ambulâncias, a memória viva da corporação em movimento, e o jantar que juntou comunidade, instituição e gratidão. Foi uma celebração completa, digna e bem conseguida. Daquelas que não servem apenas para assinalar uma data, mas para lembrar o país de como deve tratar os seus bombeiros: com respeito, presença e consequência.

    Seria bom que cerimónias desta natureza não fossem exceção feliz, mas prática reiterada. Em Lousada, e em todo o país. Porque falar dos bombeiros não pode ser apenas hábito de verão, quando o calor aperta, os incêndios começam e todos descobrem, por alguns dias, que existem homens e mulheres disponíveis para entrar onde os outros fogem. Os bombeiros não podem ser lembrados apenas quando há fumo no horizonte. Merecem reconhecimento antes, meios durante e proteção depois.

    Celebrar 100 anos da Associação Humanitária dos Bombeiros Voluntários de Lousada é celebrar muito mais do que uma corporação. É celebrar uma ideia de comunidade. A ideia de que há sempre alguém disposto a responder ao pedido de ajuda. A ideia de que servir os outros continua a ser uma das formas mais nobres de estar na vida. A ideia de que uma terra se mede também pela forma como honra quem a protege.

    Por isso, neste centenário, Lousada fez bem em parar para agradecer. Fez bem em dar solenidade ao que é solene. Fez bem em mostrar às novas gerações que há exemplos que não precisam de grandes palavras para serem grandes.

    Cem anos depois, os Bombeiros Voluntários de Lousada continuam a ensinar-nos uma lição simples: há missões que não envelhecem.

    Servir é uma delas.

    Ana Leal Moreira

     

     

     

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