20 janeiro 2026, 03:46
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    BASQUETEBOL ADAPTADO: QUANDO O DESPORTO VAI ALÉM DO JOGO

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    O som das rodas a deslizar pelo chão polido do pavilhão mistura-se com o eco da bola a bater no solo. As cadeiras de rodas movem-se com agilidade, numa dança coordenada de esforço e precisão. De fora, pode parecer apenas um jogo, mas dentro do campo, cada passe, cada lançamento e cada ponto significam muito mais de que uma simples competição. São gestos de superação, afirmação e inclusão.

    Em Lousada, a Lousavidas tem sido um farol de esperança para muitas pessoas com mobilidade reduzida. Criada com o objetivo de promover a inclusão social através do desporto e da atividade física, a associação tem vindo a crescer e a diversificar as suas iniciativas. Entre as modalidades que oferece, destaca-se o basquetebol em cadeira de rodas, um projeto que tem mudado vidas desde 2018.

    Fátima Esteves, diretora da Lousavidas, explica a importância deste desporto para os atletas que dele fazem parte, “A possibilidade de poderem praticar desporto é o maior impacto na vida das pessoas com mobilidade reduzida, a socialização, a melhoria da qualidade de vida também está inerente à prática desportiva.”

    Desde o início, o Município de Lousada tem sido um parceiro essencial para o desenvolvimento do basquetebol adaptado, “O maior apoio vem do Município de Lousada, a Junta de Freguesia de Cristelos Boim Ordem, empresas como a Opticália, a Printstore, e outras vão permitindo o desenvolvimento das nossas atividades.”

    Um projeto que nasceu para durar, o basquetebol em cadeira de rodas na Lousavidas começou de forma modesta, como uma atividade de sensibilização. Com o tempo, foi conquistando espaço e atraindo atletas determinados a mostrar que o desporto não tem barreiras. A modalidade cresceu, ganhou estrutura e chegou mesmo a integrar competições nacionais. 

    Contudo, manter uma equipa ativa e competitiva tem sido um desafio constante. O principal obstáculo? A falta de recursos financeiros e de jogadores disponíveis para integrar o plantel, “O maior desafio é sempre o financeiro”, admite Fátima Esteves, “Nem todos os cadeirantes são elegíveis para jogar, e algumas pessoas que poderiam praticar a modalidade têm relutância ou estigma em sentarem-se numa cadeira de rodas.”

    Para participar num campeonato, é necessário ter pelo menos cinco atletas em campo e alguns suplentes para assegurar a rotatividade da equipa. No entanto, a falta de jogadores fez com que, na época passada, a Lousavidas não conseguisse competir, “Os maiores desafios é o plantel muito reduzido e nesta época como só tivemos 5 atletas inscritos, decidimos não participar na competição pois iria sobrecarregar e prejudicar fisicamente os atletas que teriam que fazer os jogos completos sem possibilidade de substituição e a competição é muito exigente.”

    Para quem faz parte da equipa, o basquetebol adaptado representa muito mais do que apenas uma modalidade desportiva. Para muitos atletas, a modalidade é um escape, um ponto de reencontro com a autoconfiança e a motivação, “Os nossos atletas, depois dos acidentes (temos maioria acidentados) viram no desporto o escape para as suas vidas. Um deles começou a praticar desporto há duas épocas, com quase 40 anos de idade.”

    A prática regular do basquetebol melhora a mobilidade, a resistência física e o bem-estar emocional dos atletas. Mas apesar do impacto positivo, a adesão ainda é limitada.

    Fátima Esteves acredita que parte do problema está na falta de visibilidade da modalidade, “A comunidade não é muito participativa, apenas os familiares dos jogadores estão presentes nos jogos (e como são adultos nunca temos muito público); a comunidade acha sempre muito bonito, mas infelizmente é só isso.”

    Este é um problema recorrente nas modalidades adaptadas: o reconhecimento e a valorização por parte da sociedade ainda são insuficientes. Além disso, as condições de infraestrutura para a prática do basquetebol são outro desafio. Como explica a diretora do Lousavidas, “O basquetebol em cadeira de rodas joga-se no pavilhão ou recinto desportivo com campo de basquetebol, exatamente igual ao basquetebol a pé. Não são necessárias adaptações, mas as acessibilidades fazem parte dos requisitos de construção dos equipamentos desportivos e esses requisitos não deviam ser negligenciados. Contudo, em equipamentos que não tenham as condições devidas há sempre o modo desenrascar como por exemplo, se não houver balneário adaptado, arranjam-se cadeiras de plástico para fazerem a transferência para a zona de chuveiro e as casas de banho, normalmente permitem a entrada de cadeira de rodas.

    Apesar dos desafios, a Lousavidas não desiste. O objetivo para os próximos tempos é captar novos atletas e retomar as competições nacionais, “Gostaríamos já de retomar, na próxima época, a competição. No momento não temos projeto de aumento à participação.”

    À medida que o jogo chega ao fim e os atletas saem do campo, o basquetebol adaptado da Lousavidas revela-se como uma verdadeira lição de vida: uma luta constante contra as dificuldades, onde a vitória não se mede apenas pelo resultado, mas na capacidade de ultrapassar limites, tanto físicos como sociais. A Lousavidas tem sido, ao longo do tempo, um espaço de transformação, onde o desporto se torna um meio de recuperar confiança, autoestima e sentido de pertença. Apesar dos desafios, cada pequena conquista é um passo para uma sociedade mais inclusiva e justa.

    Porque, no final, o basquetebol adaptado não é apenas um jogo – é uma prova viva de que a inclusão se constrói todos os dias, dentro e fora do campo.

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