18 outubro 2026, 03:02
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    CRÓNICA JOSÉ REGADAS: FALTA DE LIEDERANÇA

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    A liderança política é uma virtude. Vê-se quando falha e sente-se quando não existe. Liderar

    é antecipar cenários, articular recursos, decidir com clareza e falar ao país diretamente

    quando a vida das pessoas está em risco. Não se trata de retórica nem de presença mediática

    – mas de planos definidos, organização e prioridades que colocam sempre as pessoas em

    primeiro lugar. Em momentos de crise, ou se pensa antes e se age com determinação, ou se

    improvisa – e o país paga o preço.

    As tempestades que atingiram recentemente o Norte e o Centro deixaram isso à vista: onde

    se exigia autoridade e coordenação houve hesitação, falta de articulação e, por fim, ausência

    de liderança. Em vez de respostas concretas, ouviu-se o habitual discurso técnico – “os apoios

    chegarão em breve”, “está a ser feito” – sem datas, sem números, sem clareza. A sensação

    geral foi de abandono. E abandonar pessoas durante uma crise é, pura e simplesmente, falhar

    como Estado.

    A responsabilidade política é coletiva, mas há quem deva aparecer e não aparece. Luís

    Montenegro e o seu governo limitaram-se a declarações formais que não resolveram os

    problemas das pessoas.

    Há ministros cujas intervenções soaram incoerentes face à urgência. Manuel Castro Almeida

    chegou a sugerir que as famílias usassem o salário de janeiro enquanto esperam pelos apoios

    do Estado – se ao menos tivesse falado em inglês, como na Web Summit, ninguém ficaria a

    perceber a declaração. Maria Lúcia Amaral falou de trabalho em “contexto de invisibilidade”

    – parece que se inspirou em super-heróis, mas os portugueses precisavam de resultados

    visíveis. Não se trata de criticar por criticar: exige-se que quem governa cumpra funções e

    entregue soluções concretas, em vez de discursos que não resolvem nada.

    Em contraste com a ausência do poder central, o poder local representado pelos autarcas,

    serviços municipais e equipas de proteção civil esteve na linha da frente: construção de

    abrigos, desobstrução de estradas, acolhimento de famílias e comunicação direta com as

    populações. A resiliência e a proximidade salvaram vidas. É justo destacar quem esteve no

    terreno e trabalhou sem ensaios e sem amarras.Entre os exemplos, a atuação de Ana Abrunhosa, presidente da Câmara Municipal de

    Coimbra, merece menção especial: capacidade de comunicação, empatia e organização –

    qualidades que, em horas difíceis, fazem toda a diferença.

    A verdade é esta: a proximidade do poder local resolve e a descentralização é fundamental,

    mas até certo ponto; quando a dimensão do problema exige uma coordenação nacional,

    apenas o Estado central pode garantir resposta eficaz.

    O que exigir, então? Primeiro, uma avaliação rigorosa das falhas de coordenação: uma

    auditoria independente que identifique onde o planeamento falhou e como corrigir. Segundo,

    protocolos operacionais claros entre ministérios e autarquias, com responsabilidades

    definidas e prazos concretos. Terceiro, linhas financeiras imediatas para emergências, com

    critérios públicos e execução célere. Quarto, um plano nacional de resposta a eventos

    extremos, testado regularmente e sujeito a escrutínio.

    A falta de liderança paga-se em vidas humanas, destróis bens materiais e corrói a confiança

    democrática. Portugal precisa de líderes que saibam decidir e agir com coragem, competência

    e sentido de responsabilidade. É preciso que quem governa deixe de improvisar e passe a

    planear; que deixe de prometer e passe a executar; que deixe de falar para a plateia e passe a

    responder às necessidades reais. Liderar é isso: estar à altura quando o país mais precisa.

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