A liderança política é uma virtude. Vê-se quando falha e sente-se quando não existe. Liderar
é antecipar cenários, articular recursos, decidir com clareza e falar ao país diretamente
quando a vida das pessoas está em risco. Não se trata de retórica nem de presença mediática
– mas de planos definidos, organização e prioridades que colocam sempre as pessoas em
primeiro lugar. Em momentos de crise, ou se pensa antes e se age com determinação, ou se
improvisa – e o país paga o preço.
As tempestades que atingiram recentemente o Norte e o Centro deixaram isso à vista: onde
se exigia autoridade e coordenação houve hesitação, falta de articulação e, por fim, ausência
de liderança. Em vez de respostas concretas, ouviu-se o habitual discurso técnico – “os apoios
chegarão em breve”, “está a ser feito” – sem datas, sem números, sem clareza. A sensação
geral foi de abandono. E abandonar pessoas durante uma crise é, pura e simplesmente, falhar
como Estado.
A responsabilidade política é coletiva, mas há quem deva aparecer e não aparece. Luís
Montenegro e o seu governo limitaram-se a declarações formais que não resolveram os
problemas das pessoas.
Há ministros cujas intervenções soaram incoerentes face à urgência. Manuel Castro Almeida
chegou a sugerir que as famílias usassem o salário de janeiro enquanto esperam pelos apoios
do Estado – se ao menos tivesse falado em inglês, como na Web Summit, ninguém ficaria a
perceber a declaração. Maria Lúcia Amaral falou de trabalho em “contexto de invisibilidade”
– parece que se inspirou em super-heróis, mas os portugueses precisavam de resultados
visíveis. Não se trata de criticar por criticar: exige-se que quem governa cumpra funções e
entregue soluções concretas, em vez de discursos que não resolvem nada.
Em contraste com a ausência do poder central, o poder local representado pelos autarcas,
serviços municipais e equipas de proteção civil esteve na linha da frente: construção de
abrigos, desobstrução de estradas, acolhimento de famílias e comunicação direta com as
populações. A resiliência e a proximidade salvaram vidas. É justo destacar quem esteve no
terreno e trabalhou sem ensaios e sem amarras.Entre os exemplos, a atuação de Ana Abrunhosa, presidente da Câmara Municipal de
Coimbra, merece menção especial: capacidade de comunicação, empatia e organização –
qualidades que, em horas difíceis, fazem toda a diferença.
A verdade é esta: a proximidade do poder local resolve e a descentralização é fundamental,
mas até certo ponto; quando a dimensão do problema exige uma coordenação nacional,
apenas o Estado central pode garantir resposta eficaz.
O que exigir, então? Primeiro, uma avaliação rigorosa das falhas de coordenação: uma
auditoria independente que identifique onde o planeamento falhou e como corrigir. Segundo,
protocolos operacionais claros entre ministérios e autarquias, com responsabilidades
definidas e prazos concretos. Terceiro, linhas financeiras imediatas para emergências, com
critérios públicos e execução célere. Quarto, um plano nacional de resposta a eventos
extremos, testado regularmente e sujeito a escrutínio.
A falta de liderança paga-se em vidas humanas, destróis bens materiais e corrói a confiança
democrática. Portugal precisa de líderes que saibam decidir e agir com coragem, competência
e sentido de responsabilidade. É preciso que quem governa deixe de improvisar e passe a
planear; que deixe de prometer e passe a executar; que deixe de falar para a plateia e passe a
responder às necessidades reais. Liderar é isso: estar à altura quando o país mais precisa.

