Lembro-me do som do giz a escrever no quadro, dos acetatos e do retroprojetor ou do rádio para o listening. Lembro-me da voz que dizia o meu nome com a cadência de quem o aprendeu de cor — e, com ele, aprendeu também um pedaço de mim.
Ser professor é, talvez, uma das últimas formas de se viver para os outros sem esperar palmas. Uma profissão de resistência num tempo em que tudo se mede em likes, em números, em estatísticas. É uma arte silenciosa: a de semear sem ver logo o fruto, de acreditar que uma semente lançada hoje pode germinar anos depois, quando já ninguém se lembra quem a lançou.
Fui marcada por professores que nem imaginam a marca que deixaram.
A professora de Português que me ensinou a ler e a interpretar. O professor de Matemática que, entre equações e teoremas, me ensinou paciência. O professor de Filosofia que me ensinou a ver mais do que o racional. Tantos nomes, tantos rostos — alguns esbatidos pelo tempo, outros tatuados na memória com uma nitidez quase comovente.
O Joaquim de Matemática, a Ivone de Português, a Carla de Inglês, a Abília de Geografia, a Regina de Química, o Brandão de Filosofia…
E é isso que talvez não se diga o suficiente: os professores não nos ensinam apenas conteúdos. Eles ensinam formas de olhar, de estar, de pensar. Dão-nos palavras, mas sobretudo dão-nos ferramentas para usá-las. Ensinam-nos a questionar, a duvidar, a não desistir à primeira. São, tantas vezes, os primeiros adultos a acreditar em nós, quando nem nós ainda acreditamos no que podemos ser, no que viremos a alcançar.
Ser professor, hoje, é um ato de coragem. É enfrentar turmas que trazem o peso de muitas casas, muitos silêncios, muitas guerras que não são visíveis nos livros de ponto. É chegar a casa com mais cansaço do que reconhecimento. E, ainda assim, voltar no dia seguinte.
O mais belo disto tudo? É que muitos nem sabem o quanto mudaram a vida de alguém. Um comentário num teste, um elogio ou um “ralhete” no momento certo, uma exigência que na altura nos parecia castigadora e que trouxe tanto resultado. Pequenos gestos que, para quem os recebe, podem ser tudo.
Há professores que esquecemos. Mas há outros que ficam. Não porque quiseram ficar, mas porque nos deram algo que nos fez melhores, que nos fez crescer, que nos fizeram tornar muito daquilo que hoje somos. E, por isso, mesmo sem o saberem, continuam connosco — nas nossas palavras, nas nossas escolhas, no que somos e no que tentamos ser.
No fundo, ser professor é isso: tocar vidas com a ponta de uma caneta, com a alma inteira. E ficar. Para sempre.
Aos Joaquins, às Ivones, às Carlas, às Abílias, às Reginas e aos Brandões, o meu sincero obrigada por terem desempenhado um papel importante na minha vida, tal qual uma prensa na impressão de um livro.


