É inegável que, nas últimas décadas, assistimos a importantes conquistas no que diz respeito aos direitos das mulheres, fruto de décadas de luta feminista por igualdade de género, autonomia e representação social e política. No entanto, e mais recentemente, temos observado um preocupante movimento de retrocesso, impulsionado, em parte, por figuras públicas e influenciadores digitais que promovem visões conservadoras e, em alguns casos, abertamente misóginas.
Em Portugal, há dois nomes que têm gerado controvérsia e que me recuso a publicitar. Ambos, através das suas plataformas e/ou canais de comunicação, deram voz a ideias que, direta ou indiretamente, desvalorizam ou atacam conquistas do movimento feminista.
Ao invés de ficarem conhecidos por lutas justas, utilizando o dinheiro que lhes sobra à custa de todos nós em batalhas que realmente melhorem o mundo – podiam optar por seguir as pisadas filantropas de Bill Gates, que doará uma parte massiva da sua fortuna (99%) para ajudar países em vias de desenvolvimento – ficaram conhecidos/reconhecidos por declarações que romantizam papéis de género antiquados, exaltando a submissão feminina como ideal de comportamento. As suas palavras, muitas vezes disfarçadas de opinião pessoal ou liberdade de expressão, acabam por validar discursos discriminatórios e retrocessos culturais que prejudicam a luta por igualdade.
Um em particular, com uma audiência maioritariamente jovem, tem usado as redes sociais para disseminar mensagens que, sob o disfarce do humor ou da provocação, reforçam estereótipos de género e diminuem a relevância das reivindicações feministas. Ao normalizar este tipo de conteúdo junto de um público impressionável e em formação, está amplamente a contribuir para a perpetuação de comportamentos tóxicos e para a banalização do machismo.
Aliás, não é por acaso que o director nacional da Polícia Judiciária veio a público alertar para o aumento da violência contra mulheres, junto de uma faixa etária jovem, defendendo que é necessário combater este tipo de visão, de ataque à MULHER (lato sensu), que considerou “absolutamente intolerável”, tendo dado como exemplo jogos ‘online’ em que o alvo são precisamente as mulheres e em que o objetivo é violar, abater e perseguir mulheres!
Chegamos (ou retrocedemos?) até aqui?
Estes exemplos são sintomáticos de uma tendência mais ampla: o crescimento de movimentos que procuram reverter avanços sociais em nome de um “regresso aos valores tradicionais”. Muitas vezes, estes discursos encontram eco em redes sociais e plataformas digitais, onde algoritmos favorecem conteúdos polarizadores e sensacionalistas.
É fundamental compreender que estes movimentos não são inofensivos. O seu impacto vai além das redes sociais: contribuem para um ambiente social mais hostil às mulheres, normalizam discursos de ódio e colocam em risco direitos fundamentais arduamente conquistados, como o direito ao aborto, a igualdade no trabalho (aliás, para alguns o ideal é a mulher não chegar sequer ao mercado de trabalho) ou a proteção contra a violência de género.
O combate a esta tendência requer vigilância, educação e mobilização. É necessário que a sociedade civil, a comunicação social e as instituições públicas assumam o compromisso de denunciar e contrariar estes discursos, promovendo uma cultura de respeito, igualdade e progresso.
E não é uma luta de mulheres. É uma luta de todos – de pais, de irmãos, de maridos, de amigos e de Homens que reconhecem o verdadeiro valor à Mulher, àquilo que ela é e o que representa, num mundo de todos, mantendo a alteridade de cada um.
A veste da liberdade de expressão não pode, pois, servir de escudo para a opressão ou para o retrocesso.


