25 julho 2026, 02:05
Mais
    InícioOpiniãoGRANDIOSAS - SÓ QUEM É DE LOUSADA SABE

    GRANDIOSAS – SÓ QUEM É DE LOUSADA SABE

    Published on

    Há coisas que não se explicam bem a quem é de fora. Sentem-se. E em Lousada, as Festas Grandes em Honra do Senhor dos Aflitos são uma dessas coisas.

    Podemos falar dos concertos, da procissão, das marchas, das luzes, do fogo de artifício e do movimento na vila. Tudo isso é verdade. Mas nada disso chega para explicar o que estas festas representam para um lousadense. Porque as Festas Grandes não são apenas seis dias no calendário. São uma espécie de regresso. À vila, à infância, à família, aos amigos, às ruas que conhecemos de cor e que, por estes dias, parecem ganhar uma vida diferente.

    Todos os anos é assim. Há quem espere pelas férias, há quem espere pelo Natal e há quem, em Lousada, espere pelas Grandiosas. Espera-se pela iluminação nas ruas, pelo primeiro cheiro a farturas Armando — privilégio o meu ter escritório em frente ao Tribunal —, pelas barracas com bugigangas, pelos carrocéis, pelo trânsito que começa a mudar, pela avenida que deixa de ser apenas avenida e passa a ser ponto de encontro.

    Este ano, as Festas Grandes celebram 121 anos. Mais do que uma idade respeitável, é uma prova de resistência. Muita coisa mudou em Lousada, no país e no mundo. Mudaram gerações, hábitos, músicas, formas de estar e até a maneira como se vive a festa. Mas há qualquer coisa que permanece: aquela sensação de que, durante estes dias, Lousada se reconhece a si própria.

    A festa começa com um dos momentos mais simbólicos: a descida da imagem do Senhor dos Aflitos. A partir daí, a vila entra num tempo próprio. Há tradição religiosa, há devoção, há espetáculo e há também esse bairrismo saudável que nos faz dizer, sem grande humildade mas com bastante convicção, que as nossas festas são especiais. As outras festas que nos desculpem, mas rivalidades também fazem parte da cultura popular. Desde que haja respeito, alguma provocação e boa disposição, até a concorrência ajuda a manter as tradições vivas.

    A procissão de domingo continua a ser o ponto mais alto. Há uma solenidade que atravessa a vila e que obriga mesmo os mais distraídos a abrandar. Depois, ao cair da noite, as tigelinhas acesas no Monte do Senhor dos Aflitos lembram-nos que a beleza também pode estar nas coisas simples: pequenas luzes, uma tradição antiga.

    E depois há o fogo de artifício, esse momento em que todos olham para o céu como se ainda fosse possível surpreender uma vila inteira ao mesmo tempo. Nas Grandiosas, o fogo nunca é apenas fogo. É espetáculo, é comentário no dia seguinte, é comparação com outros anos, com outras comissões e com outros concelhos. Também isto faz parte da festa: esse despique popular, meio sério, meio brincalhão, que transforma luz e estrondo em matéria de orgulho local.

    Do concurso pecuário à prova de ciclismo, das bandas filarmónicas às marchas alegóricas, das fanfarras aos grupos de bombos, tudo compõe uma identidade. Não é apenas animação. É património vivido.

    E é talvez isso que mais me toca nas festas: a forma como juntam tempos diferentes. Há os mais velhos, que ainda falam das vacas de fogo com aquele brilho nos olhos de quem viu coisas que hoje dificilmente passariam em qualquer parecer de segurança. Há os pais que levam os filhos como um dia foram levados. Há os jovens que fazem da avenida junto ao Adeskabir o seu território natural, prolongando a noite até de madrugada e terminando, como manda a tradição não escrita, com pequeno-almoço na Padaria Central. Há famílias inteiras que regressam a Lousada nestes dias, porque as festas são também pretexto para voltar.

    Na minha família, as Festas da Vila têm ainda outro lugar: o almoço de domingo em casa da tia Alice. É uma daquelas tradições familiares que talvez pareçam pequenas vistas de fora, mas que dizem muito sobre o que é pertencer a uma terra. Junta-se a família, vêm uns de perto e outros de mais longe, fala-se de tudo, recorda-se quase tudo e, por umas horas, percebe-se que uma festa popular é também isto: uma casa cheia.

    Naturalmente, uma festa desta dimensão exige organização e responsabilidade. Nos últimos anos, muito se tem discutido sobre a forma como estas festas são organizadas. Talvez esteja na altura de se pensar, com serenidade, num modelo mais estável, transparente e previsível. As tradições merecem entusiasmo, mas também merecem cuidado. E quando uma festa pertence a todo um concelho, deve haver regras que protejam a própria festa, quem a organiza e quem dela participa.

    Mas isso não diminui o essencial. Pelo contrário. Mostra apenas que aquilo que é importante deve ser tratado com ainda mais respeito.

    As Festas Grandes em Honra do Senhor dos Aflitos — as nossas Grandiosas — são, no fundo, uma declaração de identidade. Dizem-nos quem fomos, mostram-nos quem somos e lembram-nos que uma terra não vive apenas de obras, números ou discursos. Vive também destas coisas: da música na rua, da família reunida, da fé que permanece, dos emigrantes que regressam, dos cheiros que nos devolvem à infância e do céu que se ilumina sobre a vila.

    Ser lousadense também é isto. É saber que, quando chegam as festas, Lousada não fica apenas mais bonita. Fica mais nossa.

    Ana Leal Moreira

     

     

     

    DEIXE UMA RESPOSTA

    Por favor digite seu comentário!
    Por favor, digite seu nome aqui

    Publicidade

    mais recentes

    GRANDIOSAS: A FESTA QUE MOSTRA A GRANDEZA DE LOUSADA

    Julho tem um significado diferente em Lousada. As Grandiosas, em honra do Senhor dos...

    PRIMEIRO DIA DAS FESTAS DE LOUSADA DIVIDIDO ENTRE A FÉ E OS BOMBOS

    O primeiro dia das Festas Grandes de Lousada ficou marcado pela descida da imagem...

    MAIS DOIS LARES ILEGAIS ENCERRADOS EM LOUSADA

    Foram encerrados mais dois lares ilegais nas freguesias de Meinedo e Cristelos, em Lousada,...

    BOCCIA SÉNIOR ENCERRA O CAMPEONATO LOUSADENSE COM FESTA DE TAÇAS E MEDALHAS

    Ontem, dia 22 de julho, realizou-se a última etapa do Campeonato de Verão de...

    HOMEM MORRE EM VIOLENTO ACIDENTE DE MOTA EM PENAFIEL

    Ao início da tarde de hoje, 23 de julho, um homem de 48 anos,...