O momento mais alto das Festas Grandes foi, desde sempre, a Majestosa Procissão em Honra do Senhor dos Aflitos. Se hoje já não o é – o que honestamente não acredito – em tempos foi-o, e tive o privilégio de viver esses tempos desde 1979.
A minha primeira participação aconteceu precisamente nesse ano, fui a abrir a Majestosa Procissão, vestida de anjinho, pequenina e despachada, como se fosse o anúncio do que viria a seguir. Mas o maior privilégio foi fazer parte, por dentro, da organização da procissão, pela mão da minha saudosa avó, a Senhora Dona Maria José, conhecida por Miquinhas do Armador.
Assim acontecia: ano após ano, a azáfama da preparação da Procissão em Honra do Senhor dos Aflitos iniciava-se pouco tempo depois de terminarem as Festas Grandes. Essa preparação acumulava-se com outros trabalhos (vestidos de comunhões, ornamentação das cruzes da Páscoa… – e, mais tarde, quando a minha avó deixou de ter empregados e se passou a dedicar-se quase exclusivamente à preparação da procissão.
Depois da recolha das roupas e dos objetos que ornamentavam a tão esperada procissão, tudo recomeçava. Ano após ano, sempre com a mesma alegria, a mesma fé e a mesma vontade de trabalhar em honra do Senhor dos Aflitos.
Os vestidos de cetim, os mantos de veludo de cores vivas — azul, verde, vermelho, laranja e roxo—, os cintos de cordão branco ateados à cintura, as rendas douradas que embelezavam os vestidos, os mantos com estrelinhas douradas cosidas à mão e os acessórios das figuras – São João com o seu carneirinho, a Samaritana com o seu cântaro de água, os Doutores da Lei com os seus livros vistosos de capa dura ou a Nossa Senhora de Nazaré – e tantos outros “quadros bíblicos”, como a minha avó lhes chamava, eram recolhidos para revisão.
Alguns eram feitos de novo com novos cetins que comprava na Baixa do Porto, outros eram alterados. E entre tantos afazeres lá surgiam novas ideias e, assim, iniciava-se um novo ciclo.
Chegava depois o momento de desenhar a procissão. Muito tempo antes, em 1966, a minha avó comprara no Porto uma Bíblia ilustrada e, a partir daí, deu uma nova dimensão à procissão, recriando a vida de Cristo, começando por Adão e Eva, do Antigo Testamento.
As crianças vinham a casa da minha avó, na Rua de Santo António, e, de ano para ano, deixavam os seus pedidos. Quase todas queriam representar Nossa Senhora e, de preferência, seguir montadas no burro, a caminho de Nazaré.
Com a firmeza e a assertividade que a caracterizavam, a minha avó ia dando destaque a outras personagens igualmente belas. Lembro-me bem de Santa Rita, de Maria Madalena ou da Samaritana. Também eu participei na procissão vestida de Santa Rita, Santa Isabel ou a Samaritana ou pegando nas extensas fitas amarelas da Senhora do Sol, que iluminava, com a sua cor radiante aquela que era, para mim e para muitos Lousadenses, a mais bela das procissões.
Mas não bastava querer. Todos tinham de representar o seu papel com dedicação. Alinhados pelas ruas de Lousada, perante uma multidão vinda não só das freguesias do concelho, mas também de muitos outros concelhos, preparavam-se durante todo o ano. Deixavam crescer o cabelo, dormiam de tranças para acordarem com o cabelo ondulado, usavam sandálias rasas o mais semelhante possível às da época de Cristo e, acima de tudo, tinham de encarnar verdadeiramente a personagem: rezando, chorando, erguendo as mãos ao céu ou mantendo um olhar de profunda devoção.
Estas eram as recomendações da Senhora da Procissão e todos as ouviam com atenção e cumpriam o pedido, naquele que era o momento mais alto das Festas Grandes.
Meses antes, todos os vestidos eram cuidadosamente lavados e bem engomados. Na manga de cada um encontrava-se um pequeno recorte de papel, cortado um a um com as tesouras e, um a um, preso com um alfinete, onde estava escrito o nome da criança ou do jovem a quem se destinava.
E fazia caminhadas atrás de caminhadas à procura de participantes com cabelos bonitos. Quando não bastava, a Senhora da Procissão encomendava as perucas, que eram entregues em casa do Sr. Costa Recoveiro, na Rua de Santo António. Chegavam em grandes caixas brancas: cabelos compridos, cacheados e vistosos. A do Senhor dos Aflitos quase sempre não se dispensava.
Os arcos e coroas colocados nas cabeças, presos por elásticos, insistiam, por vezes, em cair e tinham de ser bem apertados. Ainda assim, todos adoravam participar na procissão.
Mês após mês, dia após dia, a procissão era preparada com todo o rigor e profunda fé no Senhor dos Aflitos. Nada era feito ao acaso. Tudo era cuidadosamente pensado. Tudo era calculado. O que nunca mudava era o amor e a dedicação.
Na velha casa de pedra, onde cada pedra guardava uma história, um nome ou um improviso, ficava a sala de costura. Pelo chão espalhavam-se linhas, alfinetes, bocados de tecido. A desarrumação não importava. O importante era que tudo corresse bem e que as vestes ficassem impecáveis, sem erros nas medidas, tiradas meses antes a cada criança, jovem ou adulto.
Um mês antes a Senhora da Procissão já quase não dormia. As refeições deixavam de ter hora certa e as noites prolongavam-se em trabalho.
A ajuda indispensável da família e de uma ou outra amiga não faltava no grande dia para ajudar a vestir mais de uma centena de participantes. Todos nervosos e preocupados com a Senhora da Procissão. A correria era tanta e a gritaria constante que temíamos que, um dia, lhe desse um ataque cardíaco.
O nervosismo corria nas veias e as ordens, quase militares, colocavam todos a trabalhar com afinco e alguma ansiedade. Nesse dia havia, ainda assim, o almoço de família, mas a Senhora da Procissão mal conseguia comer. O nó na garganta e o aperto no peito não o permitiam.
Depois do almoço, por volta das 14 horas começavam a reunir-se as crianças. Primeiro, em casa da minha avó, na Rua de Santo António. Mais tarde, passaram a vestir-se nos antigos pavilhões das escolas, onde hoje é os serviços da Câmara Municipal de Lousada, para seguirem depois para o monte do Senhor dos Aflitos.
Às 18h30 horas chegava o momento. De papéis na mão, a Senhora da Procissão organizava, por ordem cronológica, a vida de Cristo, tal como a tinha idealizado, fielmente inspirada na Bíblia ilustrada.
Acompanhava a procissão do princípio ao fim, compondo um vestido, ajeitando um manto ou corrigindo um pormenor numa criança, sempre preocupada com o bem-estar de todos.
No final, chegava a recompensa dos mais pequenos: primeiro uma regueifa e, anos mais tarde, um Sumol e as bolachas de baunilha recheadas, recebidos com enorme alegria. E como sabia bem aquele pequeno manjar!
E a Senhora da Procissão? Essa estava completamente estafada, mas radiante. Dava os parabéns a todos porque se tinham portado tão bem.
Mas o momento mais esperado eram as críticas que chegavam depois. Quase sempre eram unânimes e cheias de elogios:
– Que linda foi este ano a procissão!
Que orgulho que sentia! Contava, feliz, que este ou aquele lousadense lhe tinha tecido elogias à sua procissão.
E então por fim a Senhora da Procissão apenas pedia ao Senhor dos Aflitos mais um ano para a poder realizar novamente.
Quando, por volta dos 76 anos, comunicou que no ano seguinte já não conseguiria continuar, foi, ao mesmo tempo, um alívio e uma enorme tristeza. Nos primeiros anos que se seguiram, chorava sempre que via a procissão passar na sua rua, que assistia da sua varanda adornada com as colchas brancas bordadas.
A fé no Senhor dos Aflitos mantinha-se, cada vez com mais fervor. Agora como espectadora dizia: – os tempos mudaram e há poucas crianças, mas os andores vão lindos.
À medida que os anos passavam, já perto dos cem anos, identificava um a um os santos de cada freguesia. Era impressionante.
Eu ficava ali, bem juntinha a si, partilhando a saudade e a dor de não poder continuar. E baixinho, murmurava: – Senhor dos Aflitos só vos peço mais um ano, um de cada vez. Não vos quero deixar, deixai-me chegar aos 100 anos.
Sinto um privilégio enorme por ter participado em toda esta grande empreitada, construída com tanta fé e tanto amor ao Senhor dos Aflitos.
E de cada vez que entro na capela e olho para a imagem do Senhor dos Aflitos, vejo também a Senhora da Procissão. E nos momentos mais sensíveis, é inevitável que as lágrimas me escorram pelo rosto, sem que, por vezes, as consiga disfarçar.
Ficam as memórias. Fica a saudade. Mas fica sobretudo, a aprendizagem de uma forma de encarar a vida: devemos viver tudo com intensidade, entrega e dedicação.
Só assim poderemos, um dia, dizer as mesmas palavras da Senhora da Procissão, já com cem anos de idade: – Fiz tudo, nada ficou por fazer, a única coisa que ainda fazia era a procissão em honra do Senhor dos Aflitos.
Obrigada, lousadenses, pela gratidão e apreço que sempre demonstraram à Senhora da Procissão, a minha saudosa avó Maria José, a inesquecível Miquinhas do Armador.
Sónia Babo




