Em 2022, na sequência da guerra na Ucrânia, a União Europeia da Radiodifusão impediu a participação da Rússia no Festival Eurovisão da Canção. A decisão não foi, contudo, imediata, tendo sido, aliás, precedida de uma outra bem diferente – a de que a Rússia poderia participar. Dois anos depois, em 2024, a participação de Israel, devido à guerra na Faixa de Gaza, gerou polémica, mas aconteceu. Agora, em 2025, a mesma vergonha… Israel continua na Eurovisão, pese embora o massacre que o Governo israelita vem perpetuando sobre os palestinianos. Porquê?
Dinheiro, poder e influência podia resumir. Um dos grandes patrocinadores do evento é, a propósito, a “Moroccanoil”, uma empresa israelita de produtos de cosmética. De maneiras que, não, o argumento de que a Eurovisão é um evento “apolítico”, não convence. Tudo é política, em bom rigor. Além do mais, este é um evento que envolve representações oficiais dos países (muito concretamente as televisões estatais). Ora, se isto não faz da Eurovisão um acontecimento político, então o que fará, pergunto-me.
Importa ainda relevar que este é um argumento difícil de aceitar, quando se suspendeu a Rússia, e bem, em 2022. Aponta-se, pois, aqui, facilmente, uma incoerência à União Europeia da Radiodifusão em relação aos dois conflitos que, seja dito, não podia ser mais política, no pior sentido da palavra. E é, também, por isso que o “apolítico” Festival Eurovisão da Canção é hoje o mais político dos festivais.
De nós, telespectadores, o que se espera, então? Nada menos do que o boicote. Não podemos, não devemos, assistir ao certame pela RTP como se de um banal programa de entretenimento se tratasse. É o meu apelo. Não quando na Faixa de Gaza morrem centenas de pessoas todos os dias, porque o Governo israelita é do mais reles e cruel que pode existir. É uma vergonha e uma tristeza o que se está a passar naquela parte do mundo.
Ainda este sábado, dia 10, José Pacheco Pereira escrevia no “Público” sobre esta “vergonha”. “A vergonha absoluta” é o nome do artigo, que aconselho todos a ler. Começa assim: “Acho que nunca escrevi um artigo em estado de maior indignação. O que se passa em Gaza e no território da Autoridade Palestiniana convoca não só a política, a geopolítica, as relações de forças entre Estados, o mundo do “Ocidente” e do Oriente, todos os conflitos em curso, o “Sul global”, o papel das Nações Unidas, mesmo o direito internacional, convoca tudo o que quiserem, mas tudo está abaixo de um repto moral, de uma obrigação de falar, de um dever de protestar e atuar perante um massacre cruel, diante dos nossos olhos, de um povo, o palestiniano. Só conheço uma comparação para esta indiferença, vergonhosa e também, ao mesmo tempo, a mais certeira e, num certo sentido, a mais diabólica: o encolher de ombros de todos os que sabiam que o Holocausto estava em curso”.
Com eleições à porta, o historiador termina com uma provocação aos partidos nacionais. Afinal, o que pensam cada um deles sobre o que está a acontecer em Gaza? E quantos deles estão dispostos a impor sanções a Israel? Se não tivermos respostas até domingo, uma coisa é certa: na campanha, falharam jornalistas e, sobretudo, falharam os principais líderes políticos.

