Na semana em que celebramos a nossa liberdade, deixo-vos com uma reflexão sobre o que isso significa nos nossos dias e o nosso
papel na celebração contínua desta data.
Há mais de meio século, as correntes da tirania e da opressão foram
quebradas pelas mãos corajosas e determinadas de militares e de
populares, por nomes que ficaram para a história e por tantos outros
ilustres desconhecidos. Num golpe de coragem e convicção, o povo
português ergueu-se contra um regime autoritário, clamando por liberdade, justiça e igualdade.
Em memória e respeito pelo passado, mas sobretudo pelo presente e mais ainda pelo futuro, as conquistas da Revolução de Abril não podem ser subestimadas. Foi um momento de renascimento para Portugal, um renascimento não apenas político, mas também
moral e cultural. Foi o despertar de uma consciência coletiva, a
afirmação de valores universais que transcenderam fronteiras e épocas.
Nesta jornada épica, celebramos a conquista da democracia, o direito
fundamental de cada cidadão participar ativamente na vida política do país. Recordamos o fim da censura e da repressão, o surgimento
de uma imprensa livre e plural, capaz de desafiar o poder estabelecido e promover a verdade e a transparência.
Relembramos todos aqueles que foram torturados, silenciados.
Relembramos o papel de todos e de todas que mesmo perseguidos,
nunca ousaram parar de lutar.
Em especial, as mulheres, que embora perseguidas, algumas exiladas e presas, nunca pararam de lutar pela liberdade e por direitos até então negados.
No entanto, mesmo perante todas estas conquistas, não podemos fechar os olhos aos desafios que ainda enfrentamos. A democracia é um processo contínuo, uma luta constante contra as forças que buscam acabrunha-la.
Hoje, enfrentamos inúmeros perigos que ameaçam essa liberdade
que tanto valorizamos. Desde o populismo até à polarização políti
ca, desde a desinformação até à erosão das instituições democráticas, há forças que procuram minar os alicerces da nossa democracia.
Há forças, já desenvergonhadas, que procuram repristinar ideais do
passado e fazer abater direitos há muito conquistados e dados como
assentes.
Contra estes “engenheiros do caos”, devemos despertar o Homem da sua menoridade, da sua amnésia histórica, do preconceito, do cinismo, do oportunismo político, do conservadorismo saudosista e encapsulado, das múltiplas cegueiras, sociais, ideológicas,
culturais.
Desta forma, urge fazer do Abril de ontem, dos nossos avôs, dos nos
sos pais, o Abril de hoje, o Abril dos netos e dos bisnetos, o Abril do amanhã e do futuro.
Mobilizemos todas as nossas faculdades intelectuais e criativas para
fortalecer os pilares da democracia, para construir uma sociedade
mais justa, solidária, inclusiva e humana. Para reforçar o edifício democrático, precisamos de fortalecer a educação cívica, promovendo o pensamento crítico e o respeito pela diversidade de opiniões.
Precisamos de defender a liberdade de imprensa, garantindo que os
jornalistas possam exercer o seu trabalho sem medo de represálias ou intimidação. Precisamos de fortalecer as instituições democráticas, tornando-as mais transparentes e responsáveis perante os cida
dãos.
A Revolução do 25 de abril de 1974 é mais do que um aconteci
mento histórico distante. É um lembrete poderoso do poder
transformador da vontade humana, da capacidade de um povo
unido para superar as adversidades e alcançar a liberdade e a justiça. Que esta celebração seja um momento de renovação do nosso
compromisso com os ideais democráticos, um momento de reafirmação da nossa determinação em construir um mundo melhor para todos.
Não podemos deixar cair abril no esquecimento: que se mantenha
vivo o desejo de contar a história de cada um dos heróis, dos ilustres aos mais anónimos, de nos agarrarmos à palavra como único
esconjuro contra o esquecimento, de contar, de nomear os factos gloriosos dos nossos pais, avós, vizinhos ou amigos mais velhos, de
fazer da vida cívica um exemplo de resistência… porque, afinal, narrar é resistir, narrar é lutar com palavras contra todos aqueles que querem fazer esquecer, passando uma esponja na alma de um povo
que, agora, pode gritar.
Viva a liberdade! Viva a democra
cia! Viva o 25 de Abril!


